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◇ · Arc plantes

Devaneio poético: o estado hipnoide que eleva a consciência

Bachelard distingue o devaneio poético do sonho noturno. O devaneio é um crescimento da consciência, não um relaxamento — a anima, a repercussão, a imagem cósmica e o cogito do sonhador.

Le dernier territoire souverain. On y entre par les plantes, par le silence, par le retour aux songes des anciens.

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Le Sentier du Rêve · 32/48 · Margin

Uma abertura encarnada

Yaëlle tem 34 anos e uma janela que dá para um pátio interior. Em algumas pausas do meio-dia — não em todas — pousa o café e fica ali, a olhar para o vazio, talvez quatro minutos. Nada de espectacular. Não está a meditar. Não está a pensar em nada em particular. Os colegas acham-na distante. Ela própria mal saberia dizer o que se passa — uma sensação de amplitude, de suspensão, como se algo nela respirasse mais devagar do que o costume.

Gaston Bachelard tem um nome para isto: devaneio poético. E toda a sua filosofia da imaginação — La Poétique de la Rêverie (1960), La Poétique de l'Espace (1958), L'Eau et les Rêves (1942) — é uma tentativa de fazer justiça a esses quatro minutos que uma cultura produtivista deita ao lixo.

Mas atenção: Bachelard não fala de “esvaziar a mente”. Defende algo mais preciso e mais exigente: o devaneio como crescimento da consciência. Não um relaxamento. Um aumento de ser.

Em 30 segundos

Bachelard distingue o devaneio poético (um estado de consciência activa, criadora) do devaneio ocioso (uma deriva passageira, sem âncora) e do sonho noturno (um estado sem sujeito, sem eu). O devaneio é ascendente: eleva a coerência psíquica. Age através da anima — o princípio de repouso criador presente em cada ser — e através da repercussão: uma imagem que continua a crescer muito depois de nela se ter habitado. O seu cogito: « je rêve le monde, donc le monde existe comme je le rêve. »

Vozes dos mestres

A tese fundamental: o devaneio sobe, o sonho noturno desce

Bachelard abre La Poétique de la Rêverie com uma provocação: toda a tradição psicológica coloca o devaneio « sur la mauvaise pente, sur la pente qui descend » — na má encosta, a que desce. Moleza, passividade, fuga ao real. Ele inverte o argumento. « Pour nous, toute prise de conscience est un accroissement de conscience, une augmentation de lumière, un renforcement de la cohérence psychique. » O devaneio poético — que ele cuidadosamente distingue do devaneio comum — é ascendente.

O devaneio ocioso desce. Vagueia, afoga-se nas imagens, perde o fio do sujeito. O devaneio poético permanece consciência. Habita a imagem com uma atenção ao mesmo tempo descontraída e activa — o que os neurocientistas chamariam hoje um estado hipnoide (entre a vigília e o sono, do lado da vigília).

O sonho noturno é radicalmente diferente. Bachelard opõe radicalmente devaneio e sonho: o devaneio continua a ser uma consciência criadora, o sonho noturno é sem sujeito. No sonho noturno, o eu desaparece. As imagens são-lhe feitas, não são feitas por ele. A liberdade de quem sonha à noite é quase nula.

Anima e Animus — a reinterpretação radical

Bachelard toma emprestados os termos junguianos Anima e Animus e vira-os completamente do avesso. Com ele, o par torna-se ontológico, não-sexual, universal.

O animus: o princípio do pensamento, da vontade, da crítica. Estrutura, argumenta, replica.

A anima: o princípio de repouso criador, de profundidade, de devaneio. « La rêverie — non pas le rêve — est la libre expansion de tout anima. » É a força que permite acolher uma imagem sem a dissecar. E Bachelard censura em Jung um erro: Jung teria confundido a anima com fraqueza. Não — a anima não é fraca. « Elle a ses puissances propres. » O repouso criador é uma potência, não um desfalecimento do intelecto.

Todo o ser humano traz em si os dois. Não é uma distinção de género. É uma distinção de modo de ser. Os quatro minutos de Yaëlle à janela: são quatro minutos de anima. Ela não está “a não fazer nada”. Está a aumentar o seu ser através da imagem.

O cogito do sonhador

Bachelard propõe uma reformulação do cogito cartesiano. Descartes: Penso, logo existo. Bachelard: « je rêve le monde, donc le monde existe comme je le rêve. » Não é uma dissolução do real — é uma afirmação de que a consciência que sonha produz um mundo, e que esse mundo, por sua vez, constitui o sonhador. É uma relação viva, não uma projecção no vazio.

Repercussão — a imagem que continua

Bachelard distingue a ressonância da repercussão. Ressonância: a imagem ressoa em ti, liga-se a emoções, a memórias. A repercussão é mais profunda: « Dans la résonance, nous entendons le poème, dans le retentissement nous le parlons, il est nôtre. » A repercussão é quando uma imagem não se limita a ressoar — abre algo, faz crescer o interior, continua muito depois da sessão de devaneio.

É este o critério de Bachelard para distinguir uma imagem viva de uma imagem consumida: continua a crescer, ou fechou-se num único sentido?

A imagem cósmica — apetite, não representação

Em L'Eau et les Rêves, Bachelard mostra como certas matérias (água, fogo, terra, ar) trazem em si toda uma psicologia. Uma imagem cósmica « donne au rêveur l'impression d'un chez-soi dans l'univers » — dá ao sonhador a impressão de um lar no universo. A sua fórmula: « le monde est mon appétit. » Não é Kant — não é o mundo tal como o represento. É o mundo tal como o desejo, tal como o habito através da imagem. E esse desejo é uma forma de conhecimento — cosmicidade: a capacidade de uma imagem de fazer surgir todo um universo.

A infância como modo de ser

Muitas vezes lê-se mal Bachelard, como um nostálgico da infância. Não é isso. « En tout rêveur vit un enfant, un enfant que la rêverie magnifie, stabilise. Elle l'arrache à l'histoire, elle le met hors du temps, étranger au temps. » A infância no devaneio não é um passado a reconquistar. É um modo de ser disponível agora — uma capacidade de frescura radical diante da imagem, sem a história acumulada do juízo.

Porque importa na tua vida

Vivemos numa cultura que concede dois estados legítimos: o trabalho activo e o repouso (sono, férias, relaxamento). O devaneio poético não tem gaveta. Parece ociosidade. Não se deixa inscrever num relatório de actividade. Não produz nada de visível no momento.

E, no entanto, Bachelard, após uma vida de filósofo, é categórico: « La rêverie est une conscience de bien-être » — no sentido mais literal. Não um sentimento agradável. Um estado de coerência psíquica acrescida.

O que Bachelard defende é que certas formas de intuição, de criatividade, de sentido pessoal não podem ser decididas nem produzidas por esforço directo. Emergem no estado intermédio entre o pensamento activo e o sono. Os quatro minutos de Yaëlle não são tempo perdido — são um estado de recepção activa que o pensamento dirigido não pode substituir.

A repercussão é a prova: uma imagem habitada durante o devaneio continua a trabalhar em surdina durante dias. Ressurge numa conversa, numa decisão, num texto. Não foi “analisada” — foi vivida, e continua.

A prática

Passo 1 — Não escolhas o momento. O devaneio poético não se comanda. Surge nos intervalos — uma espera, uma viagem, uma pausa involuntária. Reconhece-o quando vier. A primeira prática é o reconhecimento: “Ah, aqui está.”

Passo 2 — Não saias dele cedo demais. O devaneio ocioso dispersa-se ao fim de dois minutos. O devaneio poético pede que fiques nele — não à força, mas não o abandonando. Quando a atenção começa a vaguear, trá-la suavemente de volta à imagem ou à sensação presente. Sem esforço, apenas uma ligeira orientação.

Passo 3 — Habita uma matéria. Bachelard observa que o devaneio mais fértil ancora-se muitas vezes num elemento material: a água de um rio, a chama de uma vela, a superfície de um pedaço de madeira. Escolhe uma matéria e deixa-a falar-te. Não “o que representa esta água?”, mas: o que sentes ao olhá-la? Que imagens surgem? Deixa-as vir.

Passo 4 — Anota a imagem antes do sentido. Ao saíres do devaneio, anota uma imagem ou uma sensação — não a sua interpretação. “Uma mulher de pé à chuva” — não “acho que isto representa a minha solidão”. Deixa a imagem existir na sua concretude. O sentido pode vir mais tarde, ou não. A imagem tem um valor próprio antes de qualquer tradução.

Passo 5 — Observa a repercussão. Nos dias seguintes, repara se a imagem regressa — numa conversa, numa escolha, num sonho noturno. A repercussão é o sinal de que o devaneio foi verdadeiramente poético, e não apenas passageiro.

Ciladas frequentes

Confundir o devaneio poético com o devaneio comum. O devaneio ocioso é passivo — a imagem vagueia sem sujeito. O devaneio poético mantém um fio ténue de consciência. Se sais de um devaneio sem qualquer memória do que aconteceu, foi devaneio comum. O devaneio poético deixa sempre um rasto — uma imagem, uma cor, uma sensação.

Tentar “produzir” um devaneio. Não se força. Pôr-se na postura de “fazer devaneio” costuma produzir devaneio comum ou meditação. O devaneio vem nos interstícios — reconhece-o, não o planeies.

Analisar a imagem de imediato. É o reflexo mais comum. “Esta imagem certamente significa…” Mas, para Bachelard, a imagem poética é uma origem absoluta: é vão procurar os seus antecedentes. Deixa a imagem existir pelo menos algumas horas antes de a quereres interpretar.

Perguntas frequentes

O devaneio poético é o mesmo que a atenção plena (mindfulness)? Não. A atenção plena procura ancorar a atenção no momento presente, muitas vezes reduzindo a actividade mental. O devaneio poético é o contrário: deixa a imaginação activar-se livremente, mantendo ao mesmo tempo um fio de consciência. Ambos são úteis, mas são estados diferentes, com efeitos diferentes.

Pode provocar-se um devaneio? Criando condições favoráveis: um ambiente calmo, uma matéria para olhar (água, fogo, espaço aberto), um intervalo de tempo sem plano. Mas o próprio devaneio não se provoca — surge. Podes convidar, não comandar.

E se os meus “devaneios” são sempre preocupações ou ruminações? Bachelard faria a distinção: a ruminação é um pensamento circular, não um devaneio. Não eleva a consciência — comprime-a. Se o que chega nos teus momentos de pausa é mais angústia do que devaneio, isso é uma informação útil sobre o estado do sistema, não um problema da prática.

O devaneio pode nutrir um sonho noturno? Sim, segundo Bachelard. O devaneio diurno prepara o solo imaginal em que o sonho noturno pode circular. Os dois estados não se opõem — pertencem ao mesmo contínuo de experiência imaginal.

Ir mais longe

Livros:

Gaston Bachelard — La Poétique de la Rêverie (1960): lê pela ordem a Introdução, o cap. II (Anima/Animus), o cap. V (Cosmos). Curto e denso — lê-se num dia.

Gaston Bachelard — La Poétique de l'Espace (1958): para a topoanálise e a fenomenologia dos lugares. O cap. 8 (a imensidão íntima) é particularmente rico.

Gaston Bachelard — L'Eau et les Rêves (1942): para a psicologia dos elementos materiais. Mostra como uma única matéria estrutura toda uma imaginação.

Donald Winnicott — Playing and Reality (1971): para o espaço potencial — a zona intermédia entre o interior e o exterior, entre o sonho e a realidade.

Artigos desta série:

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Hipnagogia: o estado limiar entre a vigília e o sono

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· questions fréquentes ·

Não. A atenção plena procura ancorar a atenção no momento presente, muitas vezes reduzindo a actividade mental. O devaneio poético é o contrário: deixa a imaginação activar-se livremente, mantendo ao mesmo tempo um fio de consciência. Ambos são úteis, mas são estados diferentes, com efeitos diferentes.

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